Quem não tem máquina de lavar louças, como eu, sabe como é cansativa e repetitiva essa tarefa*. Mas eu aproveito esse tempo nada glamouroso para desacelerar, planejar, esfregando a louça suja do almoço eu já estou pensando no jantar, e com as mãos cheias de detergente anti-stress (não falta inventar mais nada) eu penso na vida e em como ela é cíclica, em como mal terminamos uma coisa já estamos repetindo tudo outra vez, como tanta coisa em nós consiste em fazer e destruir, só para ter a oportunidade de começar de novo, mas é importante fazer e destruir de novo, usar os mesmos pratos, sujá-los e lavá-los e guardá-los para usar de novo e de novo... No fim acho que não é tão ruim não ter máquina de lavar, para mim é um ato filosófico.
* Aqui em casa Luiz sempre se oferece para lavar a louça, já que ele não cozinha, mas como eu me incomodo muito menos do que ele, termino trocando essa tarefa doméstica por outras de que gosto menos. Há pouco tempo vimos um filme onde uma família jogava jogos de mímica e palavras-cruzadas e, aos perdedores, restava a pia cheia de louça suja! Achei uma excelente e divertida idéia para uma família grande ou mesmo fim de festa - sim, porque acredito nos convidados que se oferecem para lavar a louça ou pelo menos dar uma arrumada na bagunça, mesmo que seja por mera formalidade. Nada menos elegante do que o famoso já comi, já bebi, o que estou fazendo aqui...
terça-feira, 1 de abril de 2008
Cannelloni de beringela
Essa idéia é tão simples que não precisa de receita. Comecei fazendo um molho de tomate bem básico com cebola e alho dourados no azeite, uma lata de tomates italianos pelados, manjericão fresco, orégano seco, uma pitada de pimenta calabresa e uma folha de louro. Cozinhei tudo em fogo baixo por uns vinte minutos e depois bati no liquidificador - menos a folha de louro, claro. Pode-se também usar molho de tomate pronto, mas eu prefiro fazer eu mesma.
Depois fiz o recheio do cannelloni misturando duas partes de ricotta e uma de queijo de cabra. Temperei com bastante sal e pimenta e mais manjericão. Depois cortei duas berinjelas médias (poderia ter sido uma grande) em fatias compridas de cerca de um centrímetro de grossura e botei para grelhar dos dois lados. Se ainda não estivesse tanto frio por essas bandas, eu teria feito tudo de uma vez só na churrasqueira, mas tive que me resignar e grelhar duas fatias de cada vez no fogão mesmo.
Quando as beringelas estavam grelhadas e maleáveis, comecei a montar o prato. Coloquei duas conchas do molho de tomate forrando generosamente o fundo de um refratário. Depois peguei uma fatia da beringela, coloquei uma colher do recheio em uma das partes e enrolei. Coloquei no refratário com a parte enrolada para baixo, e assim fui enrolando e arrumando até terminarem as beringelas.
Coloquei um pouco de parmesão ralado na hora por cima e assei em forno médio-alto (400F) por 25-30 minutos. Fiquei positivamente surpresa ao ver que as beringelas comportaram-se perfeitamente bem no lugar da massa - mantiveram a forma, protegeram bem o recheio e ainda pegaram uma corzinha linda. Por um instante tive medo delas cozinharem demais e ficarem empapadas no molho, mas que nada. Ficaram deliciosas, e complementaram perfeitamente o recheio cremoso e o molho meio picante. Perfectly delicious!
domingo, 30 de março de 2008
E apagaram-se as luzes
Ontem saímos para jantar no Chu Chai, um restaurante tailandês vegetariano do qual já falei aqui. Como sempre, tudo estava maravilhoso, sempre que vamos lá eu fico dizendo que deveríamos ir mais vezes. Pedimos uma salada de manga com alface apimentada simplesmente divina, e enquanto esperávamos os pratos principais, uma brigada de garçons saiu da cozinha com velas em mãos, colocando-as no centro de cada mesa. "É que hoje é o dia do Earth Hour, e como estamos participando vamos apagar todas as luzes do restaurante durante uma hora", disse o garçom. Eu tinha lido sobre o Earth Hour, e sabia que Montreal participaria, mas tinha esquecido completamente que era justamente ontem. Então jantamos à luz de velas mesmo, no escurão, que além de romântico e surpreendente foi por uma causa nobre. Fiquei imensamente feliz de ter participado (duplamente, já que as luzes lá de casa também ficaram apagadas). A título de curiosidade, eles mantiveram só uma luz acesa na cozinha, mas o time dos garçons e bartenders se virou super bem sem luz nenhuma.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Ode à massa folhada, Parte II: Churros improvisados
Essa pode entrar para o rol das sobremesas mais fáceis ever. Pequei o último quadradinho da massa folhada, abri um pouco com o rolo e espalhei uma mistura de duas colheres de açúcar branco e uma colher de canela em pó. Cortei em tirinhas e torci para fazer espirais. Espalhei mais da mistura de açúcar com canela e assei por 15-20 minutos, tempo suficiente para o cheiro da canela se espalhar pela casa inteira.
Servi com um doce de leite de mais uma leva que eu tinha feito na semana passada. Na realidade, churros são massas fritas em óleo e cobertas com uma mistura de açúcar e canela, e às vezes recheadas com doce de leite. Estes podem não ser autênticos, mas para mim são até melhores, já que evitam frituras e ficam igualmente deliciosos.
Ode à massa folhada, Parte I: Tortinhas de tapenade, ricotta e tomate assado
Meio que sem querer terminei preparando o jantar de ontem todo à base de massa folhada. É impressionante como esse ingrediente é versátil, serve para doces e salgados, entradas e pratos principais, pode ser coadjuvante ou ator principal. É também um dos poucos ingredientes que mesmo os chefs profissionais preferem comprar prontos, já que é praticamente impossível fazer em casa. E, felizmente, hoje em dia encontra-se massa folhada congelada na maioria dos supermercados.
Graças ao alto conteúdo de manteiga, que é o que faz a massa expandir em camadas, ela é também um pouco frágil e temperamental na hora de abrir. Mas minha única ressalva à massa folhada é em pratos onde ela parece que serve só como enfeite, onde ela podia muito bem estar como não estar ali. Não é o caso dessas tortinhas, onde a massa folhada fornece a base e dá o tom meio que luxuoso a um prato extremamente simples.
Tortinhas de tapenade, ricotta e tomate assado
(Receita inspirada no programa The Main de Anthony Sedlak)
Essa receita não precisa de medidas precisas, e você pode mudar e colocar o que bem entender. Os ingredientes sugeridos aqui são simples, mas preparados de maneira a intensificar seus sabores. Comece fazendo os tomates assados: corte dois tomates italianos maduros ao meio, retire as sementes, tempere com azeite, sal e pimenta e coloque para assar numa grade sobre uma assadeira em forno alto por 30-40 minutos. Eles vão ficar murchinhos, quase como tomates secos mas nem tão secos. Você pode usar tomates secos ou até crus, mas eu adoro os assados pois este processo concentra toda a essência tomatal do tomate e fica muito mais gostoso.
Segundo passo: preparar a tapenade, que é uma pasta de azeitonas. Pegue um punhado de azeitonas pretas (usei kalamatas) sem caroço, um dente de alho, uma colher se sopa de alcaparras, um tiquinho de pasta de anchovas (opcional) e pimenta do reino moída na hora e bata no processador com um fio de azeite e um pouco de água até virar uma pasta. De novo, a idéia aqui é concentrar sabores poderosos. Você pode fazer bastante e guardar na geladeira para usar em sanduíches ou misturar num macarrão delícia.
Terceiro passo: preparar a massa. Usei uma massa folhada comprada pronta que já vinha em quadradinhos. Abri os quadradinhos com o rolo só um pouco até ficar do tamanho que eu queria, e coloquei-os sobre uma assadeira forrada com papel manteiga. Bati um ovo e pincelei só nas beiradas dos quadradinhos de massa, para ajudar a dourar. Com um garfo, fiz furinhos no centro da massa, deixando a borda pincelada intacta. A parte com os furinhos vai assar mas não vai crescer, já que o ar vai circular, criando uma divisão natural entre a parte do recheio e a beirada.
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segunda-feira, 24 de março de 2008
Gangsta gourmet
Depois de ver as coisas sérias que o Michael Pollan diz no youtube, você pode se divertir com este outro programa sensacional. Um rapper chamado Coolio criou uma série de programas que imita os celebrity chefs da televisão, só que com seu próprio estilo gangsta. Para explicar melhor como isso funciona, basta dizer que o sal e a pimenta vêm em pacotinhos pra lá de suspeitos. Cortando os tomates para a salada caprese, ele diz com certo orgulho que sabe manejar facas e pistolas. Isso sem falar nos jargões que já pegaram aqui em casa: "I'm gonna teach your ass how to cook!", ou "You can crush your own tomatoes, but I ain't got time for that shit"! É claro que é tudo brincadeira, e as receitas nem parecem boas, mas achei engraçadíssimo. E ele ainda promete dar um pimentão autografado para o fã que enviar o melhor vídeo para o programa.
Michael Pollan em ação
Quem está curioso para ouvir a voz do Michael Pollan ou quer saber mais informações sobre o que ele tem a dizer, o youtube está cheio de videos com as palestras e entrevistas dele.
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