domingo, 11 de novembro de 2007
O equilíbrio está nos detalhes
Os chineses acreditam no princípio filosófico de que a partir de formas opostas tem-se o equilíbrio perfeito. Essa idéia relativamente abstrata mostrou-se para mim bem concretamente na forma de um macarrão que eu comi ainda em Beijing. O prato veio com o macarrão no meio, com uma pasta de chilies vermelhos de um lado e uma massa branca de tofu do outro. Sozinha, a pasta de pimenta é intragável de tão forte; e o tofu puro também não tem gosto de nada. É somente quando mistura-se tudo ao macarrão que o prato faz sentido, o branco do tofu neutraliza o vermelho da pimenta, a harmonia é formada, yin e yang se encontram e por aí vai. E não poderia já vir tudo misturado - porque faz parte do processo que você mesmo participe desta pequena "descoberta".
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sábado, 10 de novembro de 2007
Em Pequim, coma o pato
O pato à Pequim, ou Peking Duck, é talvez o prato mais famoso e tradicional da capital chinesa. Diferente de outros pratos típicos da culinária chinesa, este tem realmente uma afiliação local muito forte – pato à Pequim só se come em Pequim e, fora dela, em restaurantes que prometem reproduzir exatamente a mesma receita. Sim, porque como tudo na China, há uma história milenar por trás do prato, há toda uma tradição em torno dele, há o local e hora certa para comê-lo, há o jeito certo de comê-lo e por aí vai.
Fomos a um restaurante especializado na iguaria chamado Beijing Dadong Roast Duck Restaurant, mas que tinha um cardápio do tamanho de uma lista telefônica. Nele, havia um texto dizendo que o chef do Dadong foi premiado por sua receita para fazer o pato ficar com a pele mais crocante. Seu segredo, bem simpes, ora: usar apenas o pato extra-magro, 97% fat-free. Já gostei da idéia, pois sempre achei pato das carnes mais pesadas que existem.
De fato, a pele é a parte mais importante deste prato, é onde está o sabor e a textura que o diferenciam de outros patos quaisquer. Li em algum lugar que eles injetam ar no pato para separar a pele da carne, mas não tenho certeza se esta é uma prática costumeira. O certo é que os patos são assados inteiros pendurados pela cabeça, quase como a nossa televisão de cachorro só que na vertical.
Na fila da espera para comer o pato
No restaurante, muito bonito e classudo, ficamos por dentro das formalidades que envolvem o prato. Primeiro, recebemos potinhos contendo os acompanhamentos: um molho doce e fortíssimo feito de ameixas, alho amassado, açúcar branco, pepino e cebolinha cortadinhos, outros vegetais em forma de conserva e umas panquequinas redondas quase transparentes de tão finas.

Depois, um garçom muito bem vestido e portando luvas e máscara traz o pato inteiro à mesa e o fatia habilidosamente na sua frente, arrumando as fatias delicadamente num prato que é, então, trazido à mesa.
O costume é fazer pequenas “trouxinhas” com a panqueca, usando as quantidades desejadas dos vegetais e da carne. Haja habilidade para dobrar tudo usando apenas os chopsticks, eu não consegui fazer nenhuma "trouxinha" digna de foto.

Preferi provar a carne pura mesmo, a pele era realmente crocante e leve, derretia na boca. E a combinação do pato com o açúcar foi a que mais me surpreendeu.
Menção honrosa para uma salada de salmão cru que pedimos de entrada mas que estava tão (ou mais) gostosa quanto o prato principal.
Fomos a um restaurante especializado na iguaria chamado Beijing Dadong Roast Duck Restaurant, mas que tinha um cardápio do tamanho de uma lista telefônica. Nele, havia um texto dizendo que o chef do Dadong foi premiado por sua receita para fazer o pato ficar com a pele mais crocante. Seu segredo, bem simpes, ora: usar apenas o pato extra-magro, 97% fat-free. Já gostei da idéia, pois sempre achei pato das carnes mais pesadas que existem.
De fato, a pele é a parte mais importante deste prato, é onde está o sabor e a textura que o diferenciam de outros patos quaisquer. Li em algum lugar que eles injetam ar no pato para separar a pele da carne, mas não tenho certeza se esta é uma prática costumeira. O certo é que os patos são assados inteiros pendurados pela cabeça, quase como a nossa televisão de cachorro só que na vertical.
No restaurante, muito bonito e classudo, ficamos por dentro das formalidades que envolvem o prato. Primeiro, recebemos potinhos contendo os acompanhamentos: um molho doce e fortíssimo feito de ameixas, alho amassado, açúcar branco, pepino e cebolinha cortadinhos, outros vegetais em forma de conserva e umas panquequinas redondas quase transparentes de tão finas.
Depois, um garçom muito bem vestido e portando luvas e máscara traz o pato inteiro à mesa e o fatia habilidosamente na sua frente, arrumando as fatias delicadamente num prato que é, então, trazido à mesa.
O costume é fazer pequenas “trouxinhas” com a panqueca, usando as quantidades desejadas dos vegetais e da carne. Haja habilidade para dobrar tudo usando apenas os chopsticks, eu não consegui fazer nenhuma "trouxinha" digna de foto.

Preferi provar a carne pura mesmo, a pele era realmente crocante e leve, derretia na boca. E a combinação do pato com o açúcar foi a que mais me surpreendeu.
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sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Um mês depois...
Estou de volta. Foram 27 dias de viagem, mais de 40 horas passadas dentro de trens, ônibus, bicicletas e barcos, nove cidades conhecidas e muitas, muitas comidas diferentes experimentadas, entre boas e ruins. Estava morrendo de vontade de voltar ao blog e documentar tudo o que vi, senti e comi, pois não quero jamais esquecer cada detalhe dessa experiência. Com calma, vou colocando tudo por aqui enquanto a vida volta ao ritmo normal.
Comendo salada de salmão cru em Beijing e dominando a técnica de comer com chopsticks.
Comendo salada de salmão cru em Beijing e dominando a técnica de comer com chopsticks.
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segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Vou para a China

Meu caso com a China não é paixão recente, nem fruto de um modismo passageiro. É coisa de muitos anos, que começou com um filme aqui, outro ali; passou do cinema para a cultura, a língua, a comida; virou assunto de pesquisa, dissertação de mestrado e tese de doutorado. A China me trouxe até o Canadá, mas demorou um pouco mais para abrir suas portas para mim.
Preferi estudar e me preparar o máximo possível, porque acredito que o conhecimento é a melhor forma de quebrar barreiras culturais e idéias pré-concebidas. Preferi esperar o momento certo, e finalmente ele chegou. Estou de malas prontas e me sinto pronta, como quem espera para conhecer aquele autor cujos livros você leu todos, cujos costumes você já conhece só de ouvir falar, cuja fisionomia é familiar e estranha ao mesmo tempo.
Durante minha estada por lá, tenho certeza que coletarei milhares de histórias e comidas novas. Porém, penso que será muito difícil alimentar o blog em tempo hábil. Vou tentar, porque acho que as histórias (especialmente as de comer) são mais gostosas saídas do forno, mas se não der guardarei tudinho para contar quando voltar. Zàijiàn!
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Comi em Nova Iorque
Eu, meu marido e minha sogra fomos passar o fim de semana em Nova Iorque. Não deu tempo para explorar a inesgotável cena gastronômica da cidade, mas pelo menos deu para dar um gostinho. Todo canto tinha uma lojinha interessante, um restaurante curioso e, claro, inúmeros points gourmets. Ainda quero voltar com calma e fazer minhas próprias descobertas.
Inocente que sou, anotei o endereço da pizzaria de Mario Batali, Otto, doida para provar um gelatto de azeite de oliva que tem lá, mas demos de cara com uma fila de mais de uma hora e quarenta e cinco minutos de espera. Acabamos jantando num charmosíssimo lugar chamado Corner Shop Café, onde tomei um vinho do Coppola (Zinfandel, muito bom) e comi o melhor ravioli de todos os tempos, com nozes e gorgonzola.
No segundo dia fomos em Chinatown, onde eu também tinha anotado alguns endereços sugeridos, mas confesso que na hora amarelei e fiquei com nojo da sujeira e da confusão. A sorte é que Little Italy fica logo ali, e terminamos comendo massa novamente (não que eu esteja reclamando). O lugar é bem turistão mesmo, mas pelo menos era mais agradável do que as ruas fétidas de Chinatown.
Bom, foi isso. Já estou me planejando para voltar no ano que vem e explorar tudo com mais tempo e calma. Esta viagem, no entanto, serviu para constatar de uma vez por todas que minha curiosidade em relação à comida (e hábitos alimentares das pessoas) é de fato mais do que uma paixão passageira. Em meio a todos os pontos turísticos eu só pensava em aonde íamos comer, eu só queria ver o que as pessoas locais andavam comendo, eu só queria ver como eram os restaurantes e o que eu poderia achar de interessante nas lojinhas. I'm definitely obsessed.
Legendas das fotos:
1- Restaurante mexicano no Times Square / Lojinha em Little Italy
2- Corner Shop Café/ Ravioli do Corner Shop Café
3- Burritoville (achei o nome engraçado) / Carrinho de comida de rua
4- Mac and Cheese com óleo de trufas (Corner Shop Bistro) / Restaurantes de Little Italy
5- Côco em Chinatown / Comendo no Central Park
Inocente que sou, anotei o endereço da pizzaria de Mario Batali, Otto, doida para provar um gelatto de azeite de oliva que tem lá, mas demos de cara com uma fila de mais de uma hora e quarenta e cinco minutos de espera. Acabamos jantando num charmosíssimo lugar chamado Corner Shop Café, onde tomei um vinho do Coppola (Zinfandel, muito bom) e comi o melhor ravioli de todos os tempos, com nozes e gorgonzola.
No segundo dia fomos em Chinatown, onde eu também tinha anotado alguns endereços sugeridos, mas confesso que na hora amarelei e fiquei com nojo da sujeira e da confusão. A sorte é que Little Italy fica logo ali, e terminamos comendo massa novamente (não que eu esteja reclamando). O lugar é bem turistão mesmo, mas pelo menos era mais agradável do que as ruas fétidas de Chinatown.
Bom, foi isso. Já estou me planejando para voltar no ano que vem e explorar tudo com mais tempo e calma. Esta viagem, no entanto, serviu para constatar de uma vez por todas que minha curiosidade em relação à comida (e hábitos alimentares das pessoas) é de fato mais do que uma paixão passageira. Em meio a todos os pontos turísticos eu só pensava em aonde íamos comer, eu só queria ver o que as pessoas locais andavam comendo, eu só queria ver como eram os restaurantes e o que eu poderia achar de interessante nas lojinhas. I'm definitely obsessed.
Legendas das fotos:1- Restaurante mexicano no Times Square / Lojinha em Little Italy
2- Corner Shop Café/ Ravioli do Corner Shop Café
3- Burritoville (achei o nome engraçado) / Carrinho de comida de rua
4- Mac and Cheese com óleo de trufas (Corner Shop Bistro) / Restaurantes de Little Italy
5- Côco em Chinatown / Comendo no Central Park
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Spaghetti squash

O outono aqui é evidente pelas folhas que amarelam nas árvores, mas também pelo aparecimento das inúmeras variações de abóbora na feira. Saem os tomates, morangos e abobrinhas do verão, entram as butternut squash, courges de todas as cores e tamanhos, e um dos meus favoritos, o spaghetti squash, ou abóbora espaguete. Ele tem este nome pois sua carne, uma vez cozida, desmancha-se em fios que lembram macarrão. Embora não tenha o mesmo gosto e a consistência seja um pouco mais al dente, é um substituto excelente para massa numa refeição mais leve.
Eu fiz meu spaghetti squash com molho bolonhesa e pão de alho. Para o molho bolonhesa, refoguei cebola, alho e duas cenouras raladas, depois juntei a carne moída, extrato de tomate, tomates pelados, manjericão fresco, louro, orégano seco, sal e pimenta. Para o pão de alho, amassei um dentão de alho e misturei com salsinha e margarina não-hidrogenada. Espalhei no pão ciabatta e assei no forno até o cheiro invadir toda a casa.
O spaghetti squash parece um melão. Corte no meio, retire as sementes e coloque com o corte para baixo numa assadeira forrada com papel alumínio. Asse em forno médio por 40 minutos.
Depois de cozido, deixe esfriar um pouco até ficar manuseável. Com um garfo, cave a carne que sairá facilmente em fibras que lembram um spaghettini. Tempere com sal e pimenta e sirva com o molho de sua preferência.
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